HOMO LUDDENS

EITA PORRA

Posted in literatura, Uncategorized by ! on outubro 19, 2008

[EITA PORRA, Ano 2, número 3, 4 páginas.] 

AMNÉSIA


Vou contar pra vocês a lenda do povo Tucuruxú
do terrível jovem guerreiro Tucuruxú
que de tanto contar histórias, esqueceu a sua própria

Era pequeno, o terrível jovem guerreiro Tucuruxú
mas cada um de seus longos fios de cabelo
borbulhava de histórias alheias, lindas e alheias

Na oca do terrível jovem guerreiro Tucuruxú
os meninos da tribo se juntavam para ouvir aquela voz firme,
imperiosa, daquele que, com muito respeito de todos, era chamado de:
“terrível jovem guerreiro Tucuruxú”

Conta ele que há muito tempo atrás
Antes mesmo da era do Jaguar, quiçá do Pasquim
Em tempos ruins um homem saíra pra caçar tatu
E, seguindo o rastro dos urubus, conseguiu achar um tamanduá…

E proseou com o bicho gordo:
– Tamanduá serve pra comê!
-Tucuruxú só serve pra pescá!
-Então te pesco, tatu!
-Não sou tatu, sou tamanduá…

Diante da resposta, o homem se viu derrotado e, triste,
voltou à tribo Tucuruxú

Anunciou o fim da história diante dos olhos atentos
dos meninos que ouviam
Até que um pequerrucho meninote Tucuruxú interveio

– Terrível jovem guerreiro Tucuruxú,
qual nome te deu Tupã?
– Não deu nome, piá.
– E as suas caçadas, guerreiro, as histórias?
– Não tenho, menino, não posso contá.

E o menino, virado em tamanduá, mais uma vez não foi pescado.
Morreu triste, duro e seco, enquanto o jovem guerreiro Tucuruxú
chamou de menino o Tamanduá…

[AMNÉSIA, de Carlos Eduardo Marconi. Cadu; Em EITA PORRA, Ano 1. Número 2, Niterói: 2003.]

EITA PORRA seria a minha primeira e única experiência com zines e afins. Foram apenas três números entre os anos de 2003 e 2004; sendo distribuído principalmente entre os alunos do curso de história da Universidade Federal Fluminense. Apesar da sua curta duração, considero a iniciativa do zine importante, pois não só revelou talentos antes desconhecidos, como nos propiciou uma experiência de trabalho em grupo. O destaque maior, sem dúvida, foram os poemas e contos do amigo Cadu Marconi.

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GUIMARÃES ROSA

Posted in literatura, Sertão, Uncategorized by ! on agosto 30, 2008

Capa de Poty.

“As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão…”

[ROSA, João Guimarães. In: Sagarana; “O burrinho pedrês”, José Olympio Editora, 1964.]